Tuesday, May 29, 2007

A nuvem que é um anjo e que me quer levar para casa

Certo homem procurava uma casa para poder habitar, muitas vezes dormira na rua, sujeito ao frio que vinha das montanhas ou recebendo os raios de sol que eram trazidos pelo perfume das flores e pelo suspiro dos jovens apaixonados. Andava ele nesta procura quando ouviu uma voz que o chamava:
- Olha para cima! disse a voz. E ele olhou e viu uma nuvem pequena e azul.
- ” De certeza que não foi ela que me chamou, as nuvens não sabem falar embora sejam criaturas sentimentais.
- Olha! Ó homem estou a falar contigo, estou aqui neste céu que tem sido a tua casa, sei que procuras uma casa dessas onde moram homens como tu, onde se acasalam, tem filhos, tem um trabalho, fazem projectos e um dia vem o outono e leva-os para um jardim frio.
- Onde fica esse jardim frio e porque estás a falar comigo esssas coisas?!
- Sabes embora eu tenha a aparência de uma nuvem, na verdade sou um anjo. Tu procuras uma casa, um lugar onde possas repousar sem sobressaltos de especie alguma, sem medo dos salteadores de estrada, um lugar onde possas ficar a sós com a tua alma, onde possas reflectir sobre a tua condição e sobre o sentido de toda a tua vida, quero dizer-te que tenho uma casa para ti.
- E onde fica esse lugar? É muito longe daqui?
- Para habitares essa casa tens de sentir que todas as tuas dores vão saindo como uma gota de água se evaporando dos olhos, tu só podes habitar esta casa quando não houver em ti nenhuma solidão e nenhum desejo.
- Estava a pernsar que durante este tempo que dormi na casa do universo, durante esse tempo em que me alimentei do fruto das árvores e de distintas raizes, em que senti o frio das montanhas e os braços das mulheres rodeando este meu coração fraco e cheio de duvidas sobre o amor, me apercebi também que uma luz me entrava na alma quando os livros que trazia comigo eram os poetas, esses seres sujos e pobres, essas criaturas insignificantes aos olhos dos bispos e dos juizes. Mas quando chegava uma chuva torrencial e as pesadas gotas caiam sobre eles eu julgava que estavam a ser abençoados, que aos seus pés se formava um arco irís tão colorido e brilhante como uma recompensa depois da morte. Depois não me importava o frio e nem a fome me torturava o espirito. Antes de saber que eras um anjo olhava-te ou olhava outras como tu e sentia que estava tão leve e tão silencioso que me esquecia de tudo e que no fundo eu era o pequeno grão de terra e toda a montanha era criação dos meus olhos.
- Dá-me as mãos, vou levar-te a essa casa.
- Estou com medo!
- De que tens medo
- Eu procurava uma casa e agora encontro uma nuvem que é um anjo e que me quer levar a uma casa que sinto ser aquela que quer receber a minha alma, aquela onde deixarei à porta as minhas dores, a minha fome, as minhas palavras e os meus amores carnais. Estou indeciso parece que preciso de me recolher por uns dias naquela velha igreja e aconselhar-me com os pássaros que costumam poisar sobre a toalha de linho estendida no altar.
E o homem ficou durante três dias naquela velha igreja onde há muito a unica liturgia era o canto dos pássaros e onde o sol se convertia aquele mistério. A nuvem passado alguns dias entrou naquela igreja onde prostrado sobre umas escadas de pedra estava ele. O anjo pegou na sua alma e levou-a para aquela casa que é o grande sol, que é o grande oceano, que é a grande porta que se abre para o novo bater de um coração.

de lobo 05

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Sunday, May 27, 2007

Estava perdida…

Estava perdida e era azul

essa cor que a cobria

esse mar que não sabia

o homem que a acordava

o homem que a adormecia.

 

Estava perdida

e era tão perto a ilusão de morrer

quando a palavra vazia

se faz palavra nascer.

 

Estava perdida e era noite

o que vinha ao pensamento

quando o amor era o vento

quando o sentir se perdia

esse mar que não sabia

o homem que a acordava

o homem que a adormecia.

 

lobo 07

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Friday, May 25, 2007

Ela era quente

 

Ela era quente, convinha que fosse quente e que os seus olhos fossem eléctricos como um fio da palavra no cume da montanha onde te vejo cair e na tua morte vejo a morte da cidade e a paixão dos homens da cidade e é plural a definição de homem com cidade. Ela era quente, toquei-lhe no ombro e vi que tinha as asas de um anjo e que atraia os homens e os esfaqueava com o caule das flores e que dormia nos taxis velhos e que vestia o sobretudo dos poetas e que sabia os poemas que cheiravam a cão e ás chaminés das fábricas de Nova York. Ela era quente e quando mexia as ancas as ervas dos muros e os velhos do jardim e as bichas e os paneleiros e os que tiram fotografias e abusam das crianças que posam nos postais e que choram de fome e são os senhores que os comem com a língua do dinheiro frio. E tu continuas quente com uma corda no pescoço e a Coreia não é um céu azul, nem Paris é um Cu. Ela era quente e por cima do seu ombro eu cantei a marcha dos pássaros e depois a sombra desmaiando nos muros era o cemitério dos mortos a voar e tu no teu discurso sublinhas-te que os mortos não podiam voar e eu disse-te que era o espirito que só existe nos livros dos poemas e nas cordas da guitarra dos subúrbios. Olhei por cima do teu ombro, vi o corpo imóvel pendurado no alto do arranha céus e vi que os teus dedos telegrafavam e o sangue caia enquanto chupavas os dedos e a máquina de filmar trabalhava sozinha com o corpo a cair-lhe em cima. Um suicídio em directo. Uma flor em directo a pedir água no noticiário das oito.
A flor era mãe de um soldado um pobre sem destino e que havia de ser morto e não conhecer o destino de morrer e de se apaixonar. Olhei-te por cima do ombro e lá estava o rio e os pregos a boiar na água dos pneus e ele o homem do talho cortava o sexo porque uma vaca lhe fora infiel. Agora chora e não vende carne infiel e mijasse como um atrasado mental que dá o cérebro para o transplante dos hambúrgueres .

Uma vaca passeava de hambúrguer por nova york e por cima do teu ombro essa cicatriz esse dedo marca digital na revista. E nova york é dos cães e Paris é das vacas e os Árabes são os donos das pedras e dos muros e os capitalistas compraram as praias e alugam cronómetros para que o sexo se faça discreto e rápido como o copo de água que se bebe num gole. Olho-te por cima do ombro e a cidade é uma festa e os homens vão cinzentos subindo e descendo as escadas e choram e riem e um dia não o fazem e quando não se faz morresse . se não queres morrer ama e se queres amar mesmo morre, se não é mentira todos os dias, a mentira de nascer e acordar.

Abre as pernas mesmo que seja só um dia, uma borboleta desflorada estará comigo neste sonho de te ver em nova york a gemer.
Por cima do ombro onde o rio bebe o esperma da borboleta que acasalou com o poeta.

lobo 05

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Monday, May 21, 2007

Ainda espero

Ainda espero aquela canção com a rádio metida entre lençóis, ainda penso que me apaixonei por ti quando te vi de punho erguido descendo a avenida. Vou experimentar aquele fato de macaco, agora tenho aulas de sexo e de mecanica, tu queres fazer amor em cima do tejadilho do velho carocha, pego no capital de karl marx e faço uma almofada para pores a cabeça, cada orgasmo teu é uma conquista revolucionária. O teu corpo, o nosso corpo, parece que tem lá o grito dos nossos filhos, as canções que eles querem cantar, a força que tem… meu amor onde está abril, em que rua se canta ainda a grandola. olha meu amor já ouvis-te falar dos orgasmos de Abril?!… vamos cantar , nós temos os tomates cheios de revolta, vamos fazer do nosso corpo livre, um mundo livre de opressão
lobo 05

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A carne sobre o pensamento

A minha alma sobre o fogo

a carne sobre o pensamento. Tu chegas ao meu ser como um gigante a um País estranho.

A minha alma doi tanto como uma foto tirada a uns olhos pobres.

Tu filmas o corpo, o desespero do corpo, a sombra negra do chão. O corpo é um animal aflito. Uma corda, uma gota de água, um grito…

lobo 07

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Deixemos cair os muros

Deixemos cair os muros; um homem não é de pedra mas há alguns que são rochas a pesar a liberdade dos outros.

Um homem não é de pedra, um homem pode ser bicho e não lhe fica mal se for água de um rio. Se não deixamos cair os muros, se faz sentido haver homens de pedra que o sol tenha o privilégio de lhes caiar o rosto e que as ervas nasçam como aquelas palavras que te declamo quando acordas suja e não te apetece deitares os olhos à janela e veres o mundo a cambalear na rua. Um homem, dizem alguns: não é de ferro; que um homem não seja de ferro ou de plástico pois se um homem fosse de ferro era muito difícil o amor, mas se um homem for de ferro o amor pode ser um carro de combate e quando a chuva lhe tocar o amor é sempre aquilo que não vai enferrujar a terra. Um homem não é de ferro, se um homem fosse de ferro seria impossível haver um Deus crucificado e feito à imagem dos homens que vão à guerra. Um Deus de ferro podia dar cinzas à terra e seria um Deus menino filho de um óperario ressuscitado no meio do entulho da fábrica do mundo.
Deixemos que haja muros a cair e muros levantados, muros que nos façam perceber que há guerras e que a paz é dentro das casas e é nas ruas, é tudo nas lágrimas e nos sorrisos. Um homem não é de pedra e se for é a casa onde entram os amigos e as janelas são os olhos que ele abre para saudar o dia. Um homem não é um bicho costuma alguém dizer, como se ser bicho fosse a vergonha de habitar a terra. Um homem é um bicho e qualquer bicho tem a dignidade de qualquer homem.

Os bichos dão calor e os homens recebem o calor do bicho sol e alguém com ar de astrónomo importante vai dizer! O sol é um bicho?!
É tão bicho como a lua é poeta.
Um homem não é de pedra mas se a pedra tiver poros é melhor assim que haver homens que não deixam respirar o pensamento.

Um homem é bicho, é ferro, é pedra, é alma, de todas as substâncias ele é e de todas as substâncias é a vida e do mesmo cumprimento de onda a morte. Um homem também é a água de um rio. Acabemos com esta palavra homem.
Era uma vez uma mulher. Uma mulher não é dos homens. Os homens e as mulheres não são dos escritores que escrevem livros, não são dos filmes nem dos teatros. Uma mulher não é de ninguém, uma mulher é um bicho e um bicho é todo o universo.

Um homem é um homem, uma mulher é uma mulher e nós somos o que quisermos. A pedra das casas e o ferro das armaduras. Assim faz sentido acordar sabendo que não foi em vão adormecer.

de lobo

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Um certo tempo do amor

Com o gume da faca cortaremos os pulsos á corrente sanguinea do sujo rio. Abreviaremoso tempo doloroso das fábricas e dos campos. Os olhares dos dias incertos. E de novo o tempo doloroso de quem espera. Cortaremos os pulsos no modo sagrado e sujo dos antigos.
Abreviaremos o tempo doloroso desta incerteza dos dias de não se saber o rumo do vento ou da água, de não encontrar os olhos para a visão brutal de um certo tempo do amor.

lobo 05

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Sunday, May 20, 2007

não tenho assunto, entro no desassunto

Estou a pensar que estando cansado da conversa normal, que por não ter assunto novo, resolvo entrar no desassunto. Podia começar por afirmar que há muitos modos de fazer o desassunto da vida, por isso puxo uma cadeira e sento aos meus pés o grande mar. Começa entre nós o desassunto. Ele com as tempestades eu que estou magro e tenho uma cintura de árvore esguia. As pessoas olham-me sózinho, veem-me a mim e ao mar, mas não veem que estou com o mar, que quando mexo as mãos estou á conversa com ele. E as pessoas chegam perto e mexem na água e penso que vão perguntar como se chama, se o pêlo vai perder o tom azul e se podem fazer cócegas no umbigo.
Os mais medrosos vão indagar se morde, se tem as vacinas em dia. Mas eu fico a ver o mar, a teimar no desassunto, não falamos de negócios, nem de coisas eruditas. Falo do meu prato de caldeirada e ele que tem peixes e homens e que nunca provou caldeirada olha-me e afasta-se. Afasta-se e eu fico com a noite, ela vai ser o meu desassunto e que desassunto melhor que descrever o movimento do caule de uma flor na palavra que o pensamento faz ondular. O meu desassunto é deixar nela a confusão de não saber se sou louco ou apaixonado. Depois chega o vento e com ele todos os desassuntos possiveis.

lobo 05

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o rio olhou com os seus olhos de água.

O rio olhou com os seus olhos de água o interior do teu corpo. Havia água no teu corpo, havia raízes e silencios, humidas palavras absorvendo o acto da paixão. O rio olhou-te como um homem olha uma mulher, como o homem e a mulher repousam sobre a ausencia das paisagens

lobo 05

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Friday, May 11, 2007

O rio é uma palavra

O rio é uma palavra

o rio é um homem.

O rio e a palavra, o pássaro no céu sugere uma interrogação ao pensamento.

 

O rio é uma palavra

a palavra que bebe a tanspiração do homem.

O cansaço absoluto da montanha quando contemplas as nuvens.

O rio é uma palavra

o rio é um homem e o olhar é uma navegação.

O rio é uma palavra

o rio é um homem onde desagua o pensamento.

Aquele pássaro no céu sugere certo vazio, aquewles que são poetas sem a intenção da poesia.

 

O rio é uma palavra

o rio é um homem e todos somos alguma parte das coisas esquecidas.

 

O rio é uma palavra e a palavra é uma vaga que se mistura entre os lábios e os dentes.

 

O rio é uma palavra

e o rio é um homem e qualquer coisa que ande na memória é uma rua, ou o gesto que nos adormece a palavra ou a torna necessaria para a condição do amor.

 

O rio é uma palavra

o rio é um homem e a nossa respiração suspensa é uma árvore.

 

Tu és esse rio

esse ser água o que ilumina a terra com a sua humidade.

O rio é uma palavra

o rio é um homem.

O pássaro no céu sugere uma interrogação ao pensamento

 

lobo 07

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