Saturday, March 31, 2007

As tuas mãos na parede do quarto

Fechas os olhos. As tuas mãos na parede do quarto como a tapar os olhos do mundo. A  aranha olha os olhos penetrantes do gato, tu preguiçosamente ergues o livro, escolhes um poema e lês num mastigar de batatas fritas com óleo. Estás a fazer as malas, arrumas tudo, até a água do mar se coubesse. Vamos os dois numa viagem de sonho, espero que não seja uma viagem de sonho e o preço de pesadelo. Estás muito bonita, tens o fecho do vestido desabotoado, gosto do movimento de desabotoar, é o movimento de fazer voar os dedos nas tuas costas, elas são estreitas como montanhas.

- Encontrei uma foto!

- Uma foto?!

- Da minha caixa de chocolates.

Era uma marca de chocolates do tempo da busca do ouro na América, se no mar a profundeza fosse chocolate, quem sabe se isso não seria o pétroleo da fantasia.

Arrumas tudo a uma velocidade que parece estarmosnuma cena de um filme mudo. Está a chover, daqui a duas horas parte o nosso avião, dás os ultimos retoques nos olhos, pões os braços á volta da minha cintura e exclamas que o amor é uma ilha.

Estamos na gare de embarque, na minha cabeça surge uma canção nostalgica, o aeroporto não é um cabarét mas eu imagino que as canções tristes fazem voar a alma.

- Achas que a alma dos Franceses é triste pergunta ela?

- As almas são todas iguais - não são todas iguais, há quem não tenha alma, ou tenha uma alma desfeita pela chuva. Tu apróximas os teus lábios, tocam-se e parece que podia ter sido assim o despontar da natureza. Entramos no avião, se aquele momento não fosse a conquista do mundo… tu olhas os meus olhos, parece que vês um filme, olhas-me fixamente, pergunto-te o que vês?! As montanhas respondes tu passando os dedos por cima deles.

- por cima da montanha dos teus olhos uma alma solitária.

- Na montanha dos meus olhos só há pássaros tropicais.

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Tuesday, March 27, 2007

Dedos entrelaçados como raizes. É este suporte que mostra que o homem não é indiferente, parte da terra e do utero universal, parte do grito profundo do touro bravo da criatura suja e da flor que na morte se torna pedra bruta e silêncio.

lobo 07

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Sunday, March 25, 2007

Lembras-te quando tinhas outro corpo.

Lembras quando tinhas outro corpo?! Agora desculpas a razão de ter o velho corpo com a solidão. Se num momento a paixão te viesse á vida como a fruta ao pomar e na pronuncia mais comum te dissesse num timido apertar de mãos:

- Maria! Eu gosto muito de ti, amo-te, caralhos me fodam como vou fazer bonito a tua vida. Tu não és velha, velhos são os dias. O sentir , o falar dá um aperto, motivo de fugir para a nossa árvore, a invenção da nossa natureza, pede á terra que te dê um abraço e perdoa aos homens.

lobo 07

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Saturday, March 24, 2007

Um desalento assim,  até parece a natureza que não existe. Antes a revolta do mar, trovoadas amaldiçoando homens e descendência, o desalento mais do que morrer é um fraco voar que nem dá para ver que sempre há um fogo a crepitar de uma pequena particula de existência.

lobo 07

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Thursday, March 8, 2007

A ultima ceia do Marinheiro de venesa

Trago-te aos pés o cansaço, também com os olhos se observa a viagem que a morte faz. Tu escutas o movimento da máquina de costura, na tua cabeça, na tua memória de infancia parece o cavalo de ferro. O teu pai está deitado, parece que tem os olhos vazios colados ao tecto, tu imaginas que as sombras no quarto são uma banda desenhada. Sais do quarto e fumas um cigarro, aquele fumo é a alma dele, não tens boas recordações, tu parecias um peixe fresco cheio de sangue a flutuar nas paredes do quarto. Agora não estás por asqui, encontras-te uma árvore que num dia de nevoeiro e sob o efeito de calmantes te recebeu de braços abertos, ias ao volante de um carro comprado em segunda mão. Não sei o que viste naquele momento! Nas nuvens cinzentas por de tras das montanhas ficava o colégio católico. A vida apagava-se como se tinha apagado o ar severo do teu pai.  Naquele lugar soprou um vento de tal modo forte, que a revista de banda desenhada que estava no banco traseiro voo para a rua. A tua alma levava os olhos do marinheiro de Venesa, tu gostavas que fosse ele o teu pai, que tivesse havido tempo para o recomeço. Nunca te contaram uma história, nunca te deram um beijo verdadeiramente molhado e verdadeiramente profundo. Foi muito demorado o tempo que os bombeiros levaram a chegar ao local, o sol era muito forte, com muito cuidado pegaram no teu corpo, não era o momento mas o marinheiro apareceu-te. Tinhas receio de lhe dares as mãos porque estavam frias. O som do mar e o aroma da comida árabe chegou-te ás narinas. Estavas morta, não sentias nada, ou sentias que era a primeira vez que voavas na vida. O teu marinheiro tinha a barba de uma semana, com as tuas mãos de morta não é possivel sentires a sua pele escarpada como a rocha. Tu não te queres encontrar com o teu pai, a tua alma podia ficar sentada nas dunas e tu de olhos muito fechados andas-te em volta do mercado, entras-te invisivel no café do alfarrabista, não era o vento, era o vento a desfolhar o livro dos piratas, ainda havia o cheiro da agua ardente no ar das caraibas. A atmosfera da cidade era de um cinzento pálido como se a cidade fosse uma actriz a maquiar-se e a esconder-se atrás de uma cortina de intrigas. Olhas-te as nuvens, como seria o céu se fosse um livro de banda desenhada, seria possivel falar com Deus sobre banda desenhada?! Tu olhas-te o fumo que saia da fábrica,parecia o bule onde a coruja bebe o seu chá, o marinheiro de Venesa contou que é preciso cuidado com os chás, tem de ser bem fervidos para que nenhum pedaço de aventura caia no pricipicio da angustia, o louco Rapustine com o gume da sua faca está á espreita para desferir o golpe no momento em que te sentires segura, ele está escondido com o pé na linha da primavera a recitar o alcorão. O teu pai tem muitas formas, tu o associaste ao louco Rapustine, achas que o teu pai inventou a máquina de matar a infancia. Queres descer á terra, ouvir o grito unico e implacavel da vida no ventre a dizer que te ama, do teu filho a chorar quando lhe batias como se bate na vida que não tivemos. E tu ouves a balada do mar salgado, que coisa estranha estar-se perdido no meio das nuvens , tu te sentarás na mesa da ultima ceia ao lado de Maria Madalena, o teu marinheiro de venesa partilhando o pão e o vinho. Quem é que sabe do encontro de cristo com corto maltese?! Aparentemente não há frio nem calor, o teu marinheiro desceu das nuvens como o profeta que vê para além das montanhas. Os desejos da alma misturam-se com os desejos do corpo. Tens saudades do teu vinho. O professor inexistencia fuma o seu cachimbo de opio e tu de repente te apercebes que não tens roupa. O teu marinheiro sorri, tu não tens um espelho á mão, passa por ali uma legião de anjos super herois: O mágico madrake, o fantasma, a miss Marple, a lucia, a madre teresa e Alcapone carregando uma cruz.  Gostavas que te oferecessem uma caixa de chocolates, pintarias a cara cor de terra, depois sentavas-te a desfolhar a aventura do escorpião do deserto. Há uma criança magra e um cão, a mãe do teu heroi é uma cigana de Malta, tu lês as mãos a essa criança, ela abandona a tua imaginação e tu entras por uma porta, não vais encontrar o monstro se não o fabricares. Durante a ceia conversou-se sobre aquele penalty duvidoso, Maria Madalena disse que os pasteis de nata estavam pouco doces e o gordo obelix pediu água benta para borrifar o javali. Tu olhas-te para eles e ao mesmo tempo para os esboços de Leonardo um pintor muito conhecido do grande publico. O teu marinheiro descalçou os sapatos e tu e ele dançaram em cima da mesa e tu rodaste a saia que bateu ao de leve na jarra do vinho sujando a toalha de linho. O teu marinheiro cheirou-te os pés, o velho Leonardo continuava a pintar e o gordo obelix continuava a trincar a sua perna de frango sob o olhar reprovador de alguns, pois que era sexta feira santa. Tu de repente reparas-te que eras a unica que estava nua, ninguem sabia da tua presença, Maria madalena roia as unhas e tinha umas conversas futeis, a moda de Paris e o cheiro dos queijos italianos, parecia que aquele lugar era uma representação falsa do céu ou na catequese tinham-te enganado. Estavas sentada na atmosfera, não sabias para onde iam os herois da banda desenhada quando morriam e agora vias o celebre reporter tintim a batizar o seu cão milu na água da chuva e o celebre cowboy da tua infancia a disparar estrelas da sua pistola. Com a mão afastas-te uma nuvem negra, parecia ter patas, podia ser uma formiga e tu pensaste em trabalho e também em coisas doces e debaixo das patas dessa nuvem formiga contemplas-te o mar azul como os olhos de cleoptra. Tu olhas o mar e tentas o desiquilibrio para a terra. Acordas! A espreitar á janela a fumar o seu cachimbo de ervas aromáticas está o capitão relampago, parece que é a tua primeira vida, apetece-te ir á lua, comer javali e ter ao teu lado o enigmático sorriso do marinheiro de veneza.

lobo 07

 

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Tuesday, March 6, 2007

Até que os olhos se fechem

A boca não come a palavra do jornal, o jornal é um peixe que cheira a podre e cheira tão podre e fica tão por baixo da terra que de tão profundo e ausente, anónimo e inexplicavelmente sedutor alcança a estação das despedidas e das paixões e dos amores que se renovam na morte e na adolescencia. A boca não come a palavra do jornal, o jornal corvo preto, bicho azarento que chateia a sorte e proclama a guerra e a faca a perfurar a vida do bairro e da prostituta e do tuberculoso e do gerente do banco e do chofer do autocarro, jornal afiado em todos os pregões de inocencia e pecado, o peixe fresco e a morte fresca e podre e doce e amarga e justa e injusta e de todos os modos até que os olhos se fechem.

lobo 07

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Sunday, March 4, 2007

Por falta de tinta

Certa mulher como não tinha roupa decidiu sair para vestir a noite. Assim vestida todos a olhavam como uma louca. A policia levou-a para a esquadra e o chefe disse.

- A senhora não pode andar nua na rua, isso fere a moral publica.

- Mas eu trago a noite vestida. E tirou um fio dental preto e mostrou ao chefe.

- A senhora pode andar assim na praia, mas não pode andar assim na via publica, pode provocar acidentes, com um corpo como o da senhora os padres pecam, nós a policia não corremos atrás dos criminosos e no trabalho haverá uma baixa de produtividade.

- Chefe! disse um subordinado, se calhar a pobre não tem dinheiro para comprar roupa, nós podemos arranjar-lhe uma farda.

- Desculpe! o senhor acha que vão reparar em mim?!, não quero suportar a indiferença.

- Chefe não sei se temos roupa que lhe sirva.

- Ó homem se a noite lhe serve o que é que não lhe serve.

- Então posso ir assim embora.

- Não pode!

- Mas disse que a noite me servia.

- Ás vezes eu também sou um filosofo, aquilo saiu-me da boca para fora.

- Outro dia uma bala saiu-lhe da pistola para fora e o chefe matou uma velhinha.

- Estava de noite não vi a coitada.

Se ela estivesse nua o chefe reparava.

- Ó Joaquim vamos a ter respeito, você anda a ler muita banda desenhada.

 

Por falta de tinta na caneta e uma avaria no disco duro e ainda devido á demissão da ministra da cultura e por terem raptado vasco pulido valente para que não diga disparates e por outras razões que não são para aqui chamadas a história fica assim inacabada.

lobo 07

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Saturday, March 3, 2007

Com a graxa dos sapatos não se pintam os lábios

Com a graxa dos sapatos não se pintam os lábios…

talvez se possa pintar as nuvens ou as fotografias onde não se distinguem os pássaros das pessoas.

Com a graxa dos sapatos não se pintam os lábios

se, se pintassem os lábios a comida sabia ao aroma da cidade e haveria no ar um cheiro de cabelos ao vento.

 

Com a graxa dos sapatos não se pintam os lábios.

 

lobo 07

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