limpas os olhos
Limpas os olhos. O ruido do avião, os olhos no azul da cidade e ele ainda sonha, não sabe se está morto, se está cansado, não tem a certeza se pode ver Deus no reflexo brilhante dos seus sapatos engraxados. O peixe vermelho flutua nas tuas meias de vidro, limpas os olhos, abres o horário e arrancas pétala por pétala como se um piano fosse uma flor e um bocado de pão a terra cheia de chuva. Tens medo, dentro do corpo puseste o Outono, olhas-te os teus pés descalços e imaginas-te mil pés descalços na poeira de um império. Tu és um corpo abandonado, é graças ao sorriso que não estás deformado. Que diferença faz a solidão ou a morte? Mas faz muita diferença, coçar o dedo do pé é uma rotina e as rotinas mesmo sendo estupidas e mesmo sendo o que são acabam por aliviar a tripa e obstruir a respiração. Esse sinal no teu pé, esse pé monstruoso que faz tremer o chão e que faz pular os bichos e faz saltar os velhos das janelas altas até as pontas espetadas do arame farpado. E que coisa bonita, golfadas de sangue manchando os teus pés ou os pés dessa humanidade peregrina e suja. Nunca vi o grande Senhor Buda, mas no café maomé cai água. Porque choras, porque o acordeon te faz tremer os dentes, por favor não fujas, os meus olhos estão cegos, não consigo chegar ao ponto, aquele ponto indefenido, caio das escadas e cada degrau é uma onda e cada golpe um som. O que há para alem do aspecto aparente das figuras do museu de cera, esta cidade cheira a fruta e ao pus das feridasvelhas dos velhos das estações empestadas de mijo. Antigamente havia carvão que fazia mover as máquinas e máquinas que faziam a vez dos braços dos homens e dos bois que puxam teimosamente alguma coisa mais que a desilusão, que o medo , que o vazio de morrer e não transformar.
lobo 07