Tuesday, February 27, 2007
Sunday, February 25, 2007
Solidão
Comecei a ficar triste como se isso nunca tivesse acontecido, mas de repente surgisse como algo novo surpreendente e fatal. Á minha volta há pessoas a comer, comem para desenharem com os olhos a comida do prato, para se sentirem ocupadas com as barbatanas dos peixes ou com as cascas das batatas, isso ajuda a passar o tempo. A solidão é mais forte que o impulso da escrita. Folheio o jornal e as nuvens passam e os pássaros e os insectos e os dedos e as roupas e o giz riscado no chão e o batom no lábio e o chocolate na blusa e a lingua no meio das pernas. Peço água mineral, liquido azul parta a loiça, um papagaio feito de guardanapos de papel.
Palavras quentes no muro, no fio electrico, na cadeira velha, no armário onde se guarda o esqueleto e o texto de teatro e o livro de aventuras.
O homem pirata, o homem das finanças, das farturas, das aguarelas, dos cogumelos, dos selos, dos papeis, dos sabores salgados, dos sabores azedos, das manhãs, das tardes, dos dias de dormir mal e outros de não dormir nada, de não ser nada, de não ter nada, de ser a fada destas ocasiões de vida errada ou de vida serrada.
Eles comem, eles bebem, mastigam desfolham e vagueiam.
O peixe, a carne, o vinho
lobo 07
Thursday, February 22, 2007
Como um gesto simples de fechar os olhos
Tu fechas os olhos, pareces uma flor ou caso não parecesses o importante é que fechas os olhos e dormes e isso também a terra o faz e os bichos que por lá moram.
Fechas os olhos, se alguêm te olhasse dentro via a noite, não essa só de estrelas e de lua, mas a noite dos sonhos secretos e das viagens simples, das paisagens nitidas e concretas daqueles que depois do trabalho seguem o rumo de outro corpo, de outra liberdade.
Tu fechas os olhos, pareces uma flor. Tenho uma flor para atirar. Agora corre a água transportando nos teus olhos a minha flor.
E o barqueiro que vai entoando as palavras na água, recolhe a flor como um gesto simples de fechar os olhos
Saturday, February 17, 2007
Os teus olhos tão fortes
Os teus olhos tão fortes… tu fazias-me ouvir Coltraine, contavas-me o tempo em que te encontras-te em Cascais com o velho preto, o grande preto do saxofone. Tu tocavas para eu ouvir no piano da sala os teus blues, os blues da tua vida triste que te fazia beber e lutar. Contavas sobre o teu tabalho de duplo, entras-te na parte final do apocalipse now. Eu, tu e a tua familia vivemos juntos, tu gostavas da minha comida chinesa, tu bebias muito e agora me lembro de ti, faz alguns anos que morreste e eu penso que talvez fosse a aventua de um filme. Se eu pudesse fazia outo final.
lobo 07
A humida aparencia dos segredos
Ainda estou á procura da noite, na tua boca escura quem dera uns lábios para iluminar.
Ainda estou á procura da noite, na tua boca andará ela como um pássaro.
Tu meu amor sabes que a noite está quando nos desencontramos.
É ela que nos descobre e deixa os nossos corpos prostrados sobre a humida aparencia dos segredos.
lobo 07
Saturday, February 10, 2007
limpas os olhos
Limpas os olhos. O ruido do avião, os olhos no azul da cidade e ele ainda sonha, não sabe se está morto, se está cansado, não tem a certeza se pode ver Deus no reflexo brilhante dos seus sapatos engraxados. O peixe vermelho flutua nas tuas meias de vidro, limpas os olhos, abres o horário e arrancas pétala por pétala como se um piano fosse uma flor e um bocado de pão a terra cheia de chuva. Tens medo, dentro do corpo puseste o Outono, olhas-te os teus pés descalços e imaginas-te mil pés descalços na poeira de um império. Tu és um corpo abandonado, é graças ao sorriso que não estás deformado. Que diferença faz a solidão ou a morte? Mas faz muita diferença, coçar o dedo do pé é uma rotina e as rotinas mesmo sendo estupidas e mesmo sendo o que são acabam por aliviar a tripa e obstruir a respiração. Esse sinal no teu pé, esse pé monstruoso que faz tremer o chão e que faz pular os bichos e faz saltar os velhos das janelas altas até as pontas espetadas do arame farpado. E que coisa bonita, golfadas de sangue manchando os teus pés ou os pés dessa humanidade peregrina e suja. Nunca vi o grande Senhor Buda, mas no café maomé cai água. Porque choras, porque o acordeon te faz tremer os dentes, por favor não fujas, os meus olhos estão cegos, não consigo chegar ao ponto, aquele ponto indefenido, caio das escadas e cada degrau é uma onda e cada golpe um som. O que há para alem do aspecto aparente das figuras do museu de cera, esta cidade cheira a fruta e ao pus das feridasvelhas dos velhos das estações empestadas de mijo. Antigamente havia carvão que fazia mover as máquinas e máquinas que faziam a vez dos braços dos homens e dos bois que puxam teimosamente alguma coisa mais que a desilusão, que o medo , que o vazio de morrer e não transformar.
lobo 07
Se o teu corpo fosse de água e eu na água do teu corpo misturasse os mes olhos como seria louco não puder adormecer. Que luz é essa em que tropeço, que forma essa depois da morte ou que solidão golpeando os olhos ensonados dos que se afirmam pássaros e poetas e pobres e apaixonados e no entanto universais.
lobo 07
Friday, February 9, 2007
A ave voava e o céu escurecia
Ainda agora a ave voava e o céu escurecia.
Passou o navio e a água por entre os nossos olhos ainda por acordar.
Ainda agora os homens contemplavam e os ventos mudavam de rumo levando as suas palavras.
Ainda agora a ave voava e a canção se perdia.
Passou o navio e a água limpando os rostos.
Ainda agora a ave voava e o céu escurecia.
lobo 07
Monday, February 5, 2007
Ó minha mãe
Ó mãe não me leves para a guerra
ó mãe não me dês água com sal
ó mãe não me ponhas a morte á frente com máscara de carnaval
nem quero a vida fingida, assim uma mulher fatal.
Ó mãe não me deixes na rua para eu perceber a solidão
corto uma árvore ao meio e do meio faço um irmão.
No meio da rua
batendo com os pés
porque não me sinto
porque me falta a fé.
Se ela corre para mim
e se ela me enlaça
ou se ela me condena no meio da praça.
Castigo de amor
ó minha mãe
água com sal
cantar para tantos e viver sem ninguém.
ó mãe não me deixes na rua…
lobo 07
Sunday, February 4, 2007
A senhora dos olhos tristes era uma alma que vertia água
A senhora dos olhos tristes era uma alma que vertia água
e os velhos pescadores quando abraçavam o mar sentiam que era a senhora dos olhos tristes aquele gemer aquela canção, aquele balançar dos olhos.
A senhora dos olhos tristes soprou no chão e fez aparecer infinitas estrelas e a chuva para ver as criaturas dançar.
A senhora dos olhos tristes
mas o triste talvez fosse apenas a cor.
Fosse como fosse
fosse o vento ou a musica
no silencio do amor a senhora dos olhos brilhantes vai fazer voar os poetas.
Os poetas e os camponezes
os pescadores e os Deuses
olhando os seus olhos adormecem.
A senhora dos olhos tristes
ou a senhora dos olhos brilhantes
ela é o universo que me contempla e eu não sei as palavras que me faltam.
Procuro na terra, procuro no seu corpo e depois
fico a morrer ouvindo a canção da eternidade.
lobo 06