Tuesday, December 26, 2006

Longe fica o vento

dos olhos meus tão infantis

do eco desses mares, desses canhões

ouvi teu nome, Luis vaz de camões.

Foste de desgraça

e agora és de gloria, cantado em tantas raças, tantos credos

de má memoria, erguendo miserias e medos.

 

Por esses mares

ou por essas praças arrastando a desdita dos amores

que nesses teus cantares finges que são suaves tuas dores.

Agora não sou rei

não me perdi jamais, morri com espada

e foi engano quem julgou que eu voltaria

numa certa fria madrugada.

 

lobo 06

 

Posted by relogiodesacertado at 17:49:19 | Permalink | No Comments »

Sunday, December 24, 2006

memória profunda.

Fiz uma viagem longa

vi guerreiros de ferro, uma gruta de luz e uma máquina de guerra muito veloz

passando entre a noite e o dia. E vi muitos que morriam e no oitavo dia eu despertei e por cima dos meus olhos

estava a montanha.

 

lobo 06

Posted by relogiodesacertado at 13:18:21 | Permalink | No Comments »

Vinho e broa lua e couve galega

A sopa sabia a terra

Manuel e Maria, vinho e broa

lua e couve galega.

Sabia a terra

vida madrasta, cabra cega

gelo de um palmo de montanha.

Amanhã tempo de apanhar azeitona

antes que a velha se deite ilumine o santo com azeite.

A sopa era um caldo quente

bençãos e pragas, coisas estranhas da floresta.

 

A vida e a morte

juntas na mesma festa.

lobo 06

Posted by relogiodesacertado at 13:12:31 | Permalink | No Comments »

Todas as perguntas que me fazes.

Pergunta-me coisas

todas as perguntas que me fazes, todas as palavras que me escondes.

 

As roupas

os segredos, os medos pressentidos quando a noite nos corta o corpo

como uma espada  nos iniciando na eternidade.

 

Pergunta-me coisas

todas as palavras que proferes, todos os silencios com que olhas

as mãos nos gestos, os gestos entre a multidão

num bocado de nada nasce o verbo pão.

Pergunta-me coisas das roupas ou da nudez

dos rios que se cruzam e das palavras que sopram como o vento

quando vais começar a adormeçer.

Pergunta-me coisas dos homens e das cidades, coisas da terra e da eternidade.

 

Pergunta-me coisas

as roupas e a cor dos olhos

Se tu chorares haverá apenas um perfume na tua viagem.

Todos os segredos

todas as palavras

as mãos entre os gestos

os gestos entre a multidão.

 

Num bocado de nada

nasce o verbo pão.

lobo 06

Posted by relogiodesacertado at 11:00:18 | Permalink | No Comments »

Saturday, December 23, 2006

De todos os velhos.

De todos os velhos

aquele sobressai

sem estar a menos parece que se sente a mais.

 

Anda curvado

um curvar beato

tem tantos anos e tanta natureza

 

Que tudo o que vemos é o parecer breve dos enganos.

 

lobo 06

Posted by relogiodesacertado at 11:59:21 | Permalink | Comments Off

Um dia trouxeste-me um livro

Um dia trouxeste-me um livro e eu queria pão

outro dia trouxeste-me pão e eu cortei uma fatia de livro

barrei as páginas com manteiga e tomei uma chavena de chá enquanto dormias

lobo 06

Posted by relogiodesacertado at 11:28:10 | Permalink | No Comments »

Um dia os homens tem fome

Um dia os homens tem fome

outro tem esperança

ás vezes morrem

ás vezes acordam e muitas vezes não se entende em que estado existem.

lobo 06

Posted by relogiodesacertado at 10:10:23 | Permalink | No Comments »

Um dia os homens ficam loucos

Um dia os homens ficam loucos e depois anjos

e mais tarde cairá sobre eles um profundo silencio…

lobo 06

Posted by relogiodesacertado at 10:06:41 | Permalink | No Comments »

Um dia os homens

Um dia os homens ficam terra e depois água

e toda a força das mãos se abrirá num grito

oceano que se abre no corpo aflito e humano da solidão.

 

lobo 06

Posted by relogiodesacertado at 10:03:47 | Permalink | No Comments »

Thursday, December 21, 2006

O respirar fez a luz

Aqui algo se pressente

o respirar fez a luz e algo ainda mais humano.

 

Este imperio que pereceu

em nome dos homens que a si próprios

se chamaram de Deus.

 

A sombra rasga o pano

que cobre os seres

que a natureza reconhece

ao nascer.

 

lobo 06

Posted by relogiodesacertado at 10:36:55 | Permalink | No Comments »